Por que o Abade Suger pode ser considerado gênio?
Um gênio pode ser identificado por variadas características, mas três delas se apresentam extremamente relevantes: a capacidade de pensar muito além do seu tempo, a sutileza com que penetra os arcanos do infinito e os traz à existência, e a capacidade de sintetizar áreas do conhecimento que aparentemente não têm qualquer conexão.
A primeira característica o torna incompreendido no tempo e no meio em que vive. Somente passadas décadas, séculos e até milênios, quando os homens já avançaram o suficiente para apreciar e avaliar sua obra, conseguem compreendê-lo adequadamente e aquilatar o seu verdadeiro valor. Pensar além do tempo em que se vive exige o afastamento da cultura vigente, dos paradigmas dominantes e das práticas cotidianas. A mente de alguém que escapa à gravidade da sua sociedade deve ser tão forte e poderosa quanto a cultura em que está inserido, ao ponto de lançar-se em voos estratosféricos da imaginação.
A segunda característica, a sutileza, foi especialmente desenvolvida pela escolástica. Trata-se da capacidade de usar o pensamento como uma sonda que penetra profundamente, com agudeza e delicadeza, em realidades espirituais ou metafísicas. A abstração permite formar conceitos, descobrir leis que ordenam o mundo e alcançar princípios fundamentais da realidade. Somente homens de escol conseguem atingir tal nível de pensamento.
A terceira característica é a capacidade de sintetizar conhecimentos, unindo elementos aparentemente distintos e descobrindo a razão comum entre eles. Sintetizar significa unir afirmações diferentes, e essa atividade exige uma mente extremamente poderosa. Costurar princípios metafísicos profundos de modo a vislumbrar a essência das coisas é uma tarefa quase divina.
Várias pessoas conseguiram desenvolver tais capacidades de pensamento, mas poucos foram capazes de traduzir ideias tão abstratas em obras tangíveis. O Abade Suger apresentava todas essas características.
Quem foi o Abade Suger?
Suger nasceu em Chennevières-lès-Louvres, nos arredores de Saint-Denis, em 1080, e faleceu em 13 de janeiro de 1151. Seu corpo está sepultado na Basílica de Saint-Denis, igreja que ajudou a reconstruir.
De origem modesta, ainda criança foi entregue ao priorado de Saint-Denis para se tornar monge beneditino. Na infância e adolescência, estudou junto com o futuro Rei Luís VI, tornando-se mais tarde conselheiro não apenas desse rei, mas também de seu filho, Luís VII. Sua inteligência e proximidade com a realeza o tornaram uma figura influente na política de sua época. Ele também atuou como embaixador em várias ocasiões.
Suger demonstrou habilidades notáveis em diversas áreas. Como administrador, conseguiu recuperar o mosteiro de Toury-em-Beauce, que se encontrava em decadência. Em 1122, foi nomeado Abade de Saint-Denis, cargo que exerceu por 29 anos, até sua morte.
No auge de sua carreira, foi nomeado Regente da França, governando o país por dois anos.
Entretanto, sua fama não se deve apenas aos cargos que exerceu, mas à genialidade com que revolucionou a arquitetura religiosa. Criou um novo estilo arquitetônico para a Igreja da Abadia de Saint-Denis, servindo de protótipo para outras igrejas europeias. Esse estilo, mais tarde chamado de "gótico", foi reproduzido por mais de trezentos anos.
Suas Capacidades
Teólogo
Na Idade Média, a beleza era vista como um princípio metafísico que se manifestava nos objetos sensíveis. Influenciado pelo neoplatonismo do Pseudo-Dionísio, Suger acreditava que a luz material poderia elevar o ser humano espiritualmente. Essa concepção influenciou sua reforma da Igreja de Saint-Denis, onde utilizou vitrais coloridos e iluminação para criar um ambiente que conduzia o pensamento do visível ao invisível, do material ao divino.
Pedagogo
Suger aplicou a abordagem anagógica, que busca elevar a alma pela contemplação da beleza. Para ele, a arte e a arquitetura da Abadia de Saint-Denis serviam como vestígios visíveis da Divindade. Sua genialidade estava na forma inovadora com que concretizou essa ideia, utilizando meios arquitetônicos e artísticos para expressar conceitos teológicos profundos.
Administrador
Como administrador, Suger conseguiu revitalizar a Abadia de Saint-Denis e ampliar seu patrimônio. Ele soube gerenciar recursos e superar resistências à sua reforma arquitetônica, implementando as mudanças gradualmente e conquistando o apoio necessário.
Diplomata
Foi conselheiro de Luís VI e Luís VII, desempenhando missões diplomáticas importantes, incluindo a negociação do casamento de Luís VII.
Governante
Durante a ausência de Luís VII na Segunda Cruzada, Suger governou a França como Regente, consolidando sua posição como figura eminente do período.
Arquiteto
O trabalho mais notável de Suger foi a reforma da Igreja de Saint-Denis, realizada entre 1137 e 1144. Ele introduziu inovações como grandes vitrais coloridos, arcos ogivais e espaços mais iluminados. Sua visão arquitetônica representava a transição do românico para o estilo gótico.
Inspirado pela teologia neoplatônica, ele usou a luz como elemento central na construção da igreja, criando um ambiente de elevação espiritual. Seu projeto influenciou toda a arquitetura das catedrais góticas que surgiriam nos séculos seguintes.
Escritor
Suger também se destacou como escritor. Ele registrou a vida do Rei Luís VI, relatou a consagração da capela de Saint-Denis e documentou a reconstrução da igreja. Sua vasta correspondência com personalidades influentes da época demonstra seu papel ativo na vida intelectual e política.
Embora seus escritos não sejam comparáveis à atividade literária moderna, eles foram essenciais para a preservação de seu legado e das transformações que ele promoveu.